Por Fábio Ochoa
Uma comunidade é como uma flor, me disse
uma vez Dona Laura. Uma frase inocente mas com um significado terrível por trás
dela.
O diabo está nos detalhes, até mesmo nos
mais singelos.
Eu era jovem na época, sou velho agora,
tanto quanto Dona Laura era. Não existe nenhuma conclusão a partir desse fato,
foi apenas algo que o tempo tratou de cuidar.
Uma comunidade é como uma flor, me disse
uma vez Dona Laura.
Elas são frágeis e necessitam de muitos
cuidados. Não podem ser mantidas crescendo soltas, você tem que colocar seu
crescimento na direção certa e cortar as folhas e caules que não servem. Ela
também dizia que todas as sementes, até mesmo as ruins, podiam gerar boas
pétalas.
Aliás, Dona Laura tinha um belo jardim
em sua colina, o fundo perfeito para o postal vivo que era aquele bairro.
A comunidade onde cresci era um bairro à
parte.
Era uma cápsula do tempo encravada em
pleno subúrbio da cidade. A metrópole cresceu e cobriu de cinza o mundo ao
redor. O bairro permaneceu. Com seus armazéns pequenos sem cartão de crédito,
com seus vizinhos sentados ao muro para conversa preguiçosa em vez de redes
sociais, com suas cantigas de roda em vez de videogames, com suas flores e
jardins, em vez do cinza.
Toda a casa tinha as suas.
Seu Octavio no fim da rua, tinha as mais
lindas tulipas que já vi. Borbotões de pétalas avermelhadas do tamanho de um
punho.
O segredo? Coração. Ele dizia. Coloque
coração.
O diabo está nos detalhes.
Era uma comunidade onde os mau elementos
não se criavam. Eles apenas desapareciam, indo fincar suas raízes torpes em
outras plagas, indo obscurecer outros sóis. Ervas daninhas não ficavam ali. Em
pouquíssimo tempo elas aprendiam que não havia espaço para eles naquele jardim,
e, conforme imaginava eu na época, fugiam na calada da noite para outro local.
Mas na época eu era jovem.
Hoje sou velho.
Tanto quanto Dona Laura.
Era uma comunidade onde todos cuidavam
uns dos outros.
Assim era a vida, com pequenos
desentendimentos e desacordos aqui e ali, com o senso de que o melhor para
todos é melhor que a satisfação de um, afinal, nem tudo são flores.
Mudavam as estações, flores desfaleciam
e outras mais viçosas tomavam seu lugar, mas o clima era sempre o mesmo. A
tarde longa e calma de um domingo cujo tempo se recusa a passar.
E que jardim tinha aquele bairro, meu
Deus, nunca se viu outro igual.
Havia muito coração nele.
Houveram pequenos ladrões aqui e ali,
alguns pequenos traficantes também, e até algum mendigo particularmente
insistente. Nenhum deles perdurou no bairro. Era um local onde todos cuidavam
uns dos outros.
E além do mais todas as investigações
deram em nada.
Mas o que isso importava? O bairro
continuava sendo bom, o tempo, continuava cristalizado e as flores, sempre
florindo.
Mesmo que algumas casas ainda tivessem
manchas misteriosas em seus assoalhos, que teimavam em não sair.
O grande problema foi Toninho. Toninho
que quase conseguiu destruir a paz daquele bairro. Toninho, que ia casar com
Ana, neta da Dona Laura.
Toninho era preguiçoso, galanteador,
vivia de pequenos trambiques, ele gostava de mostrar que tinha estilo e a
despeito de todos os seus defeitos, seu gosto para lenços era impecável.
O que talvez foi o único elogio que Dona
Laura fez a ele. Um cafajeste, todos os velhos concordavam, sem a menor sombra
de dúvida, mesmo que gosto para lenços! Floridos, ainda por cima, coisa que não
ficaria bem em rapaz algum, mas nele sempre ficava.
E Ana, coitadinha da Ana, caiu nos galanteios
dele, aí já viu, né? O que se pode fazer?
Dona Laura não concordava com isso, já
havia passado pela perda de uma filha, não deixaria a neta que criou passar por
isso.
Eu soube que um dia houve uma grande
discussão em casa.
E depois disso Toninho sumiu.
Ana chorou, depois se conformou. A vida
continuava e as flores continuavam florindo.
Era um cafajeste, já dizia Dona Laura. Ela
estava melhor sem ele.
E daí que ele sumiu logo após a
discussão? A vida é uma treliça feita de coincidências, de pétalas que se
emaranham umas às outras, até qualquer padrão desaparecer por completo, um
arranjo de caos desabrochando nas mais diversas consequências.
Eu sempre penso nisso quando me lembro do
velho bairro, cuja paz há muito se foi com seus moradores.
Mas cujas flores, ainda viçosas, estão
lá.
Houve um epílogo triste e misterioso
para essa pequena história.
Ana casou com um rapaz, digamos, mais
adequado e com o tempo, ambos inventaram de reformar a casa de Dona Laura.
Em uma tarde de sábado de ar parado, os
martelos pararam de bater e os serras cessaram sua cantoria elétrica.
Um grito de horror se ouviu, profundo, o
horror de alguém que vê sua certeza no mundo e nas pessoas ser repentinamente
podada.
O que especulam é que eles devem ter
encontrado algum resto de Toninho, eu disse que ele quase conseguiu destruir a
paz daquele local.
Entendem o que eu quero dizer? Que bom
rapaz ele não era?
O que sabemos de fato é que desceram a colina correndo. Mãos dadas,
apertadas. Sentiam o suor entre os dedos e as gotículas começando a brotar das
testas. Chegaram à rua trôpegos e com as pupilas dilatadas.
Olharam pra esquina e
viram a velha com seu lenço florido amarrado ao pescoço.