segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Velha e as Flores

Por Fábio Ochoa

Uma comunidade é como uma flor, me disse uma vez Dona Laura. Uma frase inocente mas com um significado terrível por trás dela.
O diabo está nos detalhes, até mesmo nos mais singelos.

Eu era jovem na época, sou velho agora, tanto quanto Dona Laura era. Não existe nenhuma conclusão a partir desse fato, foi apenas algo que o tempo tratou de cuidar.
Uma comunidade é como uma flor, me disse uma vez Dona Laura.
Elas são frágeis e necessitam de muitos cuidados. Não podem ser mantidas crescendo soltas, você tem que colocar seu crescimento na direção certa e cortar as folhas e caules que não servem. Ela também dizia que todas as sementes, até mesmo as ruins, podiam gerar boas pétalas.
Aliás, Dona Laura tinha um belo jardim em sua colina, o fundo perfeito para o postal vivo que era aquele bairro.

A comunidade onde cresci era um bairro à parte.
Era uma cápsula do tempo encravada em pleno subúrbio da cidade. A metrópole cresceu e cobriu de cinza o mundo ao redor. O bairro permaneceu. Com seus armazéns pequenos sem cartão de crédito, com seus vizinhos sentados ao muro para conversa preguiçosa em vez de redes sociais, com suas cantigas de roda em vez de videogames, com suas flores e jardins, em vez do cinza.
Toda a casa tinha as suas.
Seu Octavio no fim da rua, tinha as mais lindas tulipas que já vi. Borbotões de pétalas avermelhadas do tamanho de um punho.
O segredo? Coração. Ele dizia. Coloque coração.
O diabo está nos detalhes.

Era uma comunidade onde os mau elementos não se criavam. Eles apenas desapareciam, indo fincar suas raízes torpes em outras plagas, indo obscurecer outros sóis. Ervas daninhas não ficavam ali. Em pouquíssimo tempo elas aprendiam que não havia espaço para eles naquele jardim, e, conforme imaginava eu na época, fugiam na calada da noite para outro local.
Mas na época eu era jovem.
Hoje sou velho.
Tanto quanto Dona Laura.

Era uma comunidade onde todos cuidavam uns dos outros.
Assim era a vida, com pequenos desentendimentos e desacordos aqui e ali, com o senso de que o melhor para todos é melhor que a satisfação de um, afinal, nem tudo são flores.
Mudavam as estações, flores desfaleciam e outras mais viçosas tomavam seu lugar, mas o clima era sempre o mesmo. A tarde longa e calma de um domingo cujo tempo se recusa a passar.
E que jardim tinha aquele bairro, meu Deus, nunca se viu outro igual.
Havia muito coração nele.

Houveram pequenos ladrões aqui e ali, alguns pequenos traficantes também, e até algum mendigo particularmente insistente. Nenhum deles perdurou no bairro. Era um local onde todos cuidavam uns dos outros.
E além do mais todas as investigações deram em nada.
Mas o que isso importava? O bairro continuava sendo bom, o tempo, continuava cristalizado e as flores, sempre florindo.
Mesmo que algumas casas ainda tivessem manchas misteriosas em seus assoalhos, que teimavam em não sair.

O grande problema foi Toninho. Toninho que quase conseguiu destruir a paz daquele bairro. Toninho, que ia casar com Ana, neta da Dona Laura.
Toninho era preguiçoso, galanteador, vivia de pequenos trambiques, ele gostava de mostrar que tinha estilo e a despeito de todos os seus defeitos, seu gosto para lenços era impecável.
O que talvez foi o único elogio que Dona Laura fez a ele. Um cafajeste, todos os velhos concordavam, sem a menor sombra de dúvida, mesmo que gosto para lenços! Floridos, ainda por cima, coisa que não ficaria bem em rapaz algum, mas nele sempre ficava.
E Ana, coitadinha da Ana, caiu nos galanteios dele, aí já viu, né? O que se pode fazer?
Dona Laura não concordava com isso, já havia passado pela perda de uma filha, não deixaria a neta que criou passar por isso.
Eu soube que um dia houve uma grande discussão em casa.
E depois disso Toninho sumiu.

Ana chorou, depois se conformou. A vida continuava e as flores continuavam florindo.
Era um cafajeste, já dizia Dona Laura. Ela estava melhor sem ele.
E daí que ele sumiu logo após a discussão? A vida é uma treliça feita de coincidências, de pétalas que se emaranham umas às outras, até qualquer padrão desaparecer por completo, um arranjo de caos desabrochando nas mais diversas consequências.
Eu sempre penso nisso quando me lembro do velho bairro, cuja paz há muito se foi com seus moradores.
Mas cujas flores, ainda viçosas, estão lá.

Houve um epílogo triste e misterioso para essa pequena história.
Ana casou com um rapaz, digamos, mais adequado e com o tempo, ambos inventaram de reformar a casa de Dona Laura.
Em uma tarde de sábado de ar parado, os martelos pararam de bater e os serras cessaram sua cantoria elétrica.
Um grito de horror se ouviu, profundo, o horror de alguém que vê sua certeza no mundo e nas pessoas ser repentinamente podada.
O que especulam é que eles devem ter encontrado algum resto de Toninho, eu disse que ele quase conseguiu destruir a paz daquele local.
Entendem o que eu quero dizer? Que bom rapaz ele não era?
O que sabemos de fato é que desceram a colina correndo. Mãos dadas, apertadas. Sentiam o suor entre os dedos e as gotículas começando a brotar das testas. Chegaram à rua trôpegos e com as pupilas dilatadas.
Olharam pra esquina e viram a velha com seu lenço florido amarrado ao pescoço.



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